Hemodiálise: por que a água da clínica passa por tratamento
Três vezes por semana, durante cerca de quatro horas, o sangue de quem perdeu a função dos rins passa por um filtro e fica separado de um líquido de diálise apenas por uma membrana fina. Esse líquido é feito quase todo de água. Por isso, a água para hemodiálise não pode ser a da torneira, nem a mineral, nem a de um purificador comum.
Na hemodiálise, a qualidade da água pesa tanto quanto a máquina. Ela sai de um sistema de tratamento montado dentro da própria clínica, com várias etapas em série e análises periódicas. Este texto explica por que a água comum não serve, o que a norma brasileira exige, como o tratamento funciona e o que o paciente e a família podem perguntar.
O conteúdo é informativo e não substitui orientação do nefrologista. Paciente em diálise não deve alterar a rotina de sessões ou de dieta por conta própria.
Quantas pessoas dependem da diálise no Brasil

O Censo Brasileiro de Diálise, da Sociedade Brasileira de Nefrologia, estimou mais de 172 mil pessoas em diálise no país em 2024. A grande maioria faz hemodiálise em clínicas, e boa parte dos atendimentos é financiada pelo SUS. Para todas elas, a qualidade da água é um assunto de segurança.
Quem tem doença renal crônica avançada precisa de diálise ou de transplante para substituir a função dos rins. A diálise remove toxinas, sais e líquidos que o corpo não consegue eliminar, e a água é o meio em que isso acontece.
Por que a água da torneira não serve
Quem bebe um copo de água potável conta com o intestino e com os rins para barrar ou eliminar o que não deve ficar no corpo. Na diálise essa defesa não existe. Uma única sessão coloca o sangue em contato indireto com mais de 100 litros de água, e o que estiver dissolvido nela pode atravessar a membrana.
O cloro e a cloramina, usados para desinfetar a rede pública, destroem glóbulos vermelhos e causam anemia. O alumínio, que sobra do tratamento convencional, se acumula nos ossos e no cérebro de quem não urina. Cálcio e magnésio em excesso provocam náusea, pressão alta e fraqueza durante a sessão.
Há ainda o risco biológico. Bactérias que vivem em tubulações liberam endotoxinas, fragmentos que causam febre e calafrios mesmo quando o microrganismo já morreu.
O que a norma brasileira exige
No Brasil, o padrão está na RDC 11, publicada pela Anvisa em 2014, que trata das boas práticas dos serviços de diálise. Segundo o guia, em 2024 outra resolução, a RDC 919, passou a regular também o projeto físico dos sistemas de purificação.
Os limites mais citados pela vigilância sanitária mostram o rigor. As bactérias heterotróficas devem ficar em até 100 unidades formadoras de colônia por mililitro, com nível de ação em 50. Os coliformes totais devem estar ausentes em 100 mililitros. As endotoxinas ficam em até 0,25 unidade por mililitro, e o alumínio em até 0,01 miligrama por litro.
Para comparar, a água da torneira dentro do padrão de potabilidade pode ter até 0,2 miligrama por litro de alumínio, vinte vezes o tolerado na diálise.
As etapas do tratamento, na ordem em que acontecem
O caminho da água dentro da clínica é sempre o mesmo, e cada equipamento protege o seguinte. Tudo começa em um reservatório de água potável exclusivo, com cloro residual e limpeza programada. Depois vem o filtro de areia ou multimídia, que retém partículas, barro e ferrugem da rede.
O abrandador troca cálcio e magnésio por sódio e evita crosta nas membranas. O filtro de carvão ativado retira o cloro e a cloramina. A osmose reversa barra sais, metais, bactérias e endotoxinas em uma membrana de poros muito pequenos. Por fim, a água segue por um anel de distribuição em circulação contínua, que a leva a cada máquina sem deixar trecho parado.
A osmose reversa é o coração do sistema.
Osmose reversa: o coração do sistema
A membrana de osmose reversa rejeita mais de 95% dos sais dissolvidos e praticamente todas as bactérias. É ela que faz a condutividade cair de algumas centenas de microsiemens para menos de dez. Só que a membrana é sensível: o cloro a oxida em poucas semanas, a dureza a entope e uma partícula grossa pode rasgar a superfície.
Daí a importância das etapas anteriores, que existem para que ela dure e mantenha a rejeição. Em muitas clínicas, o sistema tem equipamentos em duplicidade, para que uma falha não interrompa as sessões.
Controle da água na hemodiálise
Tratar a água não basta, é preciso provar que o tratamento funciona. As clínicas fazem testes diários, como a verificação de cloro e de dureza, e análises periódicas de bactérias, endotoxinas e alumínio, de acordo com a norma, em laboratórios habilitados. Os resultados devem ficar registrados e disponíveis para a vigilância sanitária.
O sistema também passa por desinfecção programada, para evitar a formação de biofilme, uma camada de bactérias que gruda na parede dos tubos e é difícil de remover.
O que o paciente e a família podem perguntar
Quem faz hemodiálise tem direito a informações claras sobre o serviço. Vale perguntar se a clínica tem licença sanitária em dia, quem é o responsável técnico, com que frequência a água é analisada e se os resultados podem ser consultados. Também é legítimo perguntar como a clínica lida com falhas no sistema e com quedas no fornecimento de água.
Se algo parecer fora do padrão, como febre e calafrios recorrentes durante as sessões, o paciente deve relatar à equipe imediatamente. Ela deve investigar a causa, inclusive a qualidade da água.
Cuidados em casa para quem faz diálise
A água que o paciente bebe e usa em casa não é a que passa pela máquina, mas o cuidado com a dieta e com os líquidos faz parte do tratamento. Em geral, o nefrologista orienta controle de sal, de potássio, de fósforo e do volume de líquidos entre uma sessão e outra. Seguir essas regras reduz mal-estar e riscos durante a diálise.
Faltar às sessões é perigoso, e qualquer dificuldade de transporte ou de acesso deve ser comunicada ao serviço social da clínica, que pode ajudar a buscar alternativas.
Água e hemodiálise no SUS e nas clínicas privadas
A mesma norma vale para clínicas públicas, conveniadas ao SUS e privadas. A vigilância sanitária inspeciona os serviços, e a licença de funcionamento depende da adequação do sistema de água. Em caso de dúvida ou de irregularidade, o paciente pode procurar a ouvidoria do SUS, pelo telefone 136, ou a vigilância sanitária do município.
Nenhum paciente deve ficar sem diálise por problemas de água. Os serviços precisam ter plano de contingência para falhas.
Como o sistema de água evita a contaminação
A principal ameaça é o biofilme, a camada de bactérias que se instala na parede dos tubos. Para combatê-lo, o anel de distribuição mantém a água em circulação contínua, as tubulações são lisas e sem pontos mortos, e a desinfecção química ou térmica é feita em intervalos regulares. A manutenção das membranas e dos filtros segue calendário rígido.
Um resumo para guardar
A hemodiálise usa mais de cem litros de água por sessão, e essa água entra em contato indireto com o sangue. Por isso, ela passa por filtros, abrandador, carvão ativado e osmose reversa, e segue limites mais rígidos que os da água potável, como definem as normas da Anvisa.
O paciente tem direito de perguntar sobre o sistema e de relatar sintomas. O acompanhamento com o nefrologista e o respeito às sessões continuam sendo a base do tratamento.
